Isto não é propriamente um blogue. É apenas um espaço para expandir trabalhos que, pela sua dimensão, tornem fastidiosa a sua leitura no Memórias.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma espécie de funcionário público


         O seu nome era António mas desde pequeno toda a gente lhe chamava Antoninho, o menino Antoninho primeiro e o senhor Antoninho mais tarde, quando passou a ocupar um lugar importante na administração pública.
         Nasceu numa aldeia do interior, no seio de uma família conceituada, tanto pelo poder económico que lhe advinha de um pequeno comércio local e pela posse de terras que lhe permitiam viver desafogadamente, como pelo papel social que desempenhava através da distribuição do correio e do telefone público, únicos na localidade.
         Por isso o Antoninho teve a oportunidade que outros da sua aldeia não tiveram de ir estudar para um colégio interno lá para os lados de Braga onde concluiu o curso geral dos liceus um pouco à custa da generosidade paternal. Embora revelasse “potencial” para ir muito mais além, viu-se obrigado a interromper a sua brilhante carreira académica devido ao falecimento de seu pai e ser preciso regressar à casa paterna para ajudar a mãe no comércio e na lavoura.
         Aqui se fez homem adulto e responsável. Contraiu matrimónio com a prima Dorinda com quem teve dois filhos mas o dever cívico imperava e foi chamado a cumprir as obrigações militares numa altura em que todos eram poucos para defender o império que se estendia do Minho a Timor, com a agravante de terem surgido focos de insurreição em algumas das mais emblemáticas províncias ultramarinas.
         Pelas suas habilitações académicas, após a formação básica foi seleccionado para fazer o curso de sargentos milicianos em Tavira e de seguida promovido a furriel de infantaria. Ali passou a ser tratado por furriel Esteves. Mobilizado para uma comissão de serviço na Guiné, formou batalhão em Santa Margarida de onde partiu com destino àquela província ultramarina. Ali se destacou por actos de bravura atestados pelos dois louvores concedidos pelo seu comandante e uma condecoração com a cruz de guerra de quarta classe obtida por feitos em campanha.
         Regressou são e salvo passados três longos anos mas entretanto muitas coisas mudaram no continente e na santa terrinha e a família passava por algumas dificuldades económicas.
         O comércio estava em declínio, a mão-de-obra esvaiu-se por deslocação para o estrangeiro ou para as grandes cidades, a agricultura definhava.
         Ainda pensou emigrar, à semelhança da maioria dos jovens daquele tempo, que assim não só se eximiam ao serviço militar e à guerra mas também melhoravam as condições de vida com salários muito acima dos que eram praticados por cá, mesmo em trabalhos desqualificados embora muito penosos.
         Mas o Antoninho, um nacionalista convicto cujo amor à Pátria saiu reforçado com a sua participação activa nas campanhas de África, entendeu que o seu lugar era cá, junto dos seus. Por isso, socorreu-se dos conhecimentos que a família adquirira em tempos de maior abastança e foi a Lisboa falar dos seus problemas com um velho amigo da casa, um diplomata reformado, a quem fez obséquio do último presunto de produção caseira que ainda se mantinha intacto no armário.
         O velho amigo não o deixou voltar de mãos a abanar. Telefonou para o cartório notarial da sede do concelho e falou com o conservador, o dr. Teodósio de Sousa, de quem fora colega no seminário. Havia uma vaga para um funcionário naqueles serviços e tinha a pessoa certa para ocupar o lugar, um cidadão oriundo de boas famílias, bom filho, bom marido e bom pai de família, um bravo combatente dos inimigos da Pátria e cumpridor dos preceitos da santa igreja. Pedia-lhe, em nome da velha amizade, que tivesse essa candidatura na melhor conta na hora de decidir.
         Foi assim, sem necessidade de outras provas de acesso a não ser a declaração solene de que nunca fora comunista e repudiava firmemente essa ideologia, que o senhor Antoninho (assim passou a ser reconhecido) integrou os quadros da função pública com a categoria de ajudante de notariado no cartório notarial da vila, sede do concelho onde residia.
         Deste modo, o ex-estudante, e ex-comerciante, e ex-agricultor e ex-militar transformou-se num zeloso e influente funcionário público, sempre solícito e amável, não regateando esforços para “ajudar” os mais necessitados, os mais amigos e mais chegados e complicando extremamente a vida àqueles que exigiam tudo sem se apresentarem com coisa alguma para a “troca”.
         Por aquele cartório passaram vários conservadores, outros funcionários iam e vinham, mas o senhor Antoninho, com as suas mangas-de-alpaca, parecia agarrado de tal forma àquele espaço que até parecia já fazer parte do mobiliário. Conhecia e reconhecia todos os cantos e artefactos existentes nos gabinetes, era capaz de encontrar, de olhos vendados, qualquer documento enfiado nas profundezas do arquivo, distinguia as pessoas que demandavam os serviços e sabia quando devia ser solícito a atender ou fazer-se muito ocupado para “castigar” um ou outro utente que nunca deixava gorjeta.
         Também nas contas se tornou um perito. Sabia que as pessoas pouco ou nada ligavam aos papéis, pelo contrário, queriam ver-se livres deles, e então adicionava parcelas virtuais às custas e emolumentos legais, não demasiado grandes para não dar nas vistas mas o suficiente para ajudar a governar a vida, que os ordenados da função pública sempre foram escassos.
         A integração na comunidade europeia apanhou-o já com todas as diuturnidades vencidas e a transição para o novo sistema retributivo da função pública favoreceu-o, abrindo-lhe perspectivas de progressão na carreira sem grande esforço. Adquiriu um apartamento na vila, embora continuasse a viver na aldeia porque aqui sempre havia um pedaço de terra para a produção de vinho, batatas, hortaliças, fruta, criação de coelhos, galinhas, o porquinho, com a sua licença, como diziam os mais velhos, o que era uma fartura para a casa e lhe dava alguma folga salarial.
         Se no plano profissional a coisas não foram mal para o senhor Antoninho, no plano familiar também correram de feição. A esposa, após o encerramento do estabelecimento comercial que já só dava trabalho, dedicou-se de alma e coração à educação dos filhos e à administração do lar. Os filhos, um rapaz e uma rapariga, cresceram num ambiente saudável e formaram-se, ele em economia e ela em enfermagem e acabaram por ir viver para o Porto e Viana, respectivamente, cidades onde se tinham formado e arranjado emprego.
         Também no plano conjugal não houve lugar a sobressaltos apesar do casamento ter acontecido por algum interesse de parte a parte e constituíam um casal muito tradicional onde imperava o respeito mútuo e uma fidelidade a toda a prova, apesar de, a nível sexual, as coisas não correrem da melhor forma. A Dorinda por vezes sentia-se algo marginalizada e interpelava o marido acerca de ter outros amores, já que poucas vezes a procurava, mas este jurava-lhe por todos os santos que nunca conhecera outra mulher e que tudo não passava de cisma dela. E era verdade. O senhor Antoninho, para quem o sexo apenas servira para procriar e pouco mais, nem sequer tinha tempo de pensar nisso porque levantava-se cedo para ir para o emprego e quando voltava ainda se repartia em mil e uma tarefas domésticas. Por isso, raro era o dia em que não se deitava estoirado e pegava logo num sono profundo e revigorante para desgosto da Dorinda que, resignada, enfiava um dedo na vagina e tentava, debalde, dormir também.
         Mas como dizia o poeta, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”… Também para o pacato cidadão e distinto funcionário muita coisa havia de mudar. Muito por causa da Gabriela, Gaby, para os amigos e pessoas mais íntimas.